terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

SOBRE O VÍNCULO

Ele a encontrou daquele jeito, como quem morre, sentada no banquinho da calçada. Ele meio percussão e escola de samba desafinada, ela mais pra sax, trompete e contra-baixo.
Serviu-lhe de apoio, então. Cobriu-a com um teto e edredom. Deu o que beber e o que morder.
Já havia sentido o conforto de seu colo, uma vez, mas não tão intenso e interno como agora. Come, agora, mata sua fome. Foi uma madrugada de banquetes fartos. Enchia sua cabeça e sua boca com metáforas. Metia afora os pensamentos e o que mais conseguia, o que mais podia. Pararam, era hora de sonhar.
A manhã já não era tão clara quanto a noite. Era pintada de cinza e batom. Pálido e canção.
Ela não queria atravessar o rio e voltar pro lar, não sabia nadar. Ele, bom, sentou na primeira mesa e se deixou afogar.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

ÚLTIMO ANDAR À ÚLTIMA CAMINHADA

Ele acordou nessa data tão importante com o barulho da pia pingando. A pia pingava e, no seu copo, apenas água. Era mais um engano.
Tão errante quanto a escuridão e o sol, ele tropeçava e esbarrava em tudo. Era um desastre. Dia doze de qualquer mês que, pra ele, não passava de uma sexta-feira treze. Mas seu pesadelo foi durante o dia.
Encheu o copo com os pingos da pia. A pia pinga. Pinga a pia. Na pia, pinga. Pinga à pia. E foi assim durante todo o dia.
Que jeito mais astuto de se consentir. Que coisa cruel pra se fingir.
E quem esvaziaria suas mãos? Quem o seu caminho abriria - se alguém pra colocar à frente de tudo ele não tinha?
Ele ficava ali, parado, esperando o vento entrar por entre as janelas fechadas da sua sala mofada.
O aquário verde de limo representava bem sua vida azeda - e o copo - na mão esquerda. 
A tevê fora do ar tornava sua mente devagar. E então começava a divagar. Vamos, deixem o rapaz voar. Esqueçam as antenas, os urubus e as rádios piratas. Ele quer uma ponte aérea. Ele não quer mais nada. 
Apenas outra cama pra deitar. Deixem que ele caia do décimo segundo andar. E então, no décimo segundo, voltar a descansar.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

CADERNOS ÓBVIOS DE ÓBITO

Eu tenho caminhado sobre folhas borradas. Pulado todas as linhas apagadas. Dobrei todos os pontos e vírgulas. Mas não sabia onde tinha deixado de pisar. Onde deixei de pisar?
Deixei de pisar em você!
Sua voz, carregada nos sonhos, era leve em todos os pesadelos. Deixei de dormir durante meses - estava mais preocupado em te acordar. Estava mais preocupado em me apagar.
Hoje sou um monstro - e você é criadora. Você alimentou. Deu abrigo. Confortou. Tirou-me o teto e fez chover. Seu sangue perfeito escorrer. Quero ver meu lençol pintado de vermelho e branco.
E o atrito queima minhas solas enquanto você anda sobre rodas. É isso que furou. Logo criou asas e voou ... E desabou. Mas te pulei. Tiraria a mão do bolso pra enfiar na sua cara. Mas não. Outra oportunidade se esgotou.
Sei que enquanto os frutos caem em minha cabeça, alguém te afunda, alguém te afoga. E esse mesmo alguém vai te empurrar nesse buraco.
E aqui, quando nos encontrarmos, me lembrarei onde deixei de pisar.

domingo, 11 de janeiro de 2009

A TEMPERANÇA

O céu se fecha. O vento obriga os pássaros a voltarem. Observo deitado, observo um coitado, fecho os olhos e temo. Um saco plástico se atrapalha no caminho. É a fé, a crença biodegradável, só pode.
Nenhum fruto cai e mesmo assim eles esperam ansiosos, olhando para cima. Não vêem que a esperança já se foi.
Eu sou o único deitado. Imagino desenhos nas nuvens negras e me esforço pra entender todo o barulho. Mas é quando a minha cabeça transborda que escuto sua voz. Longe, porém limpa.
- Entre, meu bem, uma tempestade está por vir. Pintada de vermelho e olhos claros.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O POÇO E O MAU GOSTO

Caiu no poço, virou alheio. Passava todos os dias encharcado. Talvez de tanto chover em suas retinas.
Implorava para que abrissem a tampa. Só um pouco. Sol, um pouco.
Deixem o rapaz respirar, vai.
Mas ele já tomava posição, já se deitava num lugar mais confortável. Riscava menos as paredes. Os ratos nem incomodavam mais, porque ela era a tristeza mais bonita. E ele não tinha do que reclamar.
Às vezes o puxavam, só para enchê-lo de uísque, usá-lo e depois cuspir de volta pro buraco.
Esse sempre foi seu lugar. Era ali que ele largava suas vítimas. Era esse o ponto que deu mais medo durante meses. Talvez anos. Ou então a eternidade.
E nem adianta alagar para subir. Pregaram seus pés, seu peito e soltaram seus demônios. Esses riam.
Sempre que escapava para o bar, alguém cavava mais fundo. Mas ele andava com a morfina entre os dedos.
Devia ser engraçado assistir de longe. Quem se aproximava, via que não era. Mas ele estava alheio. Era transparente mesmo atrás de fumaça de cigarro.
Mas tristeza não se põe na mesa. Então ele a deixava no chão. E sem ninguém perceber, não largava sua mão nem por um segundo. Pode ser pela vontade de ir à janela, só por um segundo. Para sempre. Para sempre sua moradia embaixo da terra.
Para sempre tempestade. Ou a vontade de matar o tempo, e sonhar... para sempre.

sábado, 11 de outubro de 2008

SEM VOCÊ ATÉ O TÉDIO ADQUIRIU UM SABOR

Ato 1: Poder Com Glória.

Olha só a flor que pintei pra você. Tem espinhos, mas eles nunca vão te machucar. Nem a mim, eu acho.
Ela não é bonita, mas, bom, alguma coisa tem de existir para contrastar com a sua beleza.
Eu passo horas e horas admirando seus olhos, por mais que na vida real sejam só alguns segundos. É lindo o jeito que consigo enxergar sua alma. Ver você por inteira. Te chamar por inteira, sem dizer uma palavra. Sem piscar.
Feche os olhos, vamos deitar. Não há tempo para dormir. Queria ficar aqui pra sempre.
E seu calor desumano me tira do mundo novamente.
Viro a cara pra não ver meus erros, e me perco só de olhar pro céu. Mas você segura minha mão, e eu vejo que, se for pra se perder, que seja os dois. Estrelas podem complicar o nosso caminhar.
Qual vai ser o plano de amanhã? Nenhum, melhor improvisar. E nós somos mestres nisso.
Essa flor que te dei nunca vai murchar, eu prometo, apesar de ser um quadro de inverno. Natureza morta.


Ato 2: Depressão.

Cadê você? Estou trancado em seu quarto e penso em pular dessa janela outra vez.
Você rasgou meu quadro e me colou no seu diário. Virou a página.
Eu gostaria tanto de segurar seu coração novamente. Só que seus olhos se fecham pra mim.
Não tenho culpa de ter feito de você minha morfina, minha anestesia. Acabei me viciando. E Nenhum vício é bom, foi o que aprendi. Aprendi nada, eu nunca aprendo.
Caralho, como é ruim ter óleo queimando seu peito por dentro o dia inteiro.
Você foi se esconder no seu passado, e acabou me levando pro meu. Engraçado que, depois de velho, meu passado parece mais sombrio, e eu pareço mais criança, encostado ali no canto, choramingando porque a brincadeira acabou.
Não é justo te culpar pelo seu enjôo. Eu sei. Mas o que é justo?
Use-me ao menos uma vez, prometo: nada irá mudar. Esqueça. Você não tem nada pra lembrar. Mas eu lembro de cada detalhe, e vivo todos na minha cabeça. Como se fosse a primeira vez.
Sua fome passou e você fez o que qualquer um faria, nessa situação. Foi embora. Não precisa olhar pra trás, seria vergonhoso se você me visse desse jeito.
Vou acender outro cigarro e tomar só mais dezenove garrafas. Não fique assustada, não vou te ligar. Não quero atrapalhar seu sonho. Seu sono.
Que pesadelo. E é sempre o mesmo, pra mim.
Tá bom. Vou fingir que está tudo bem, ninguém vai reparar.
Só você, porque você vê minha alma, não vê? O problema é que seus olhos se fecharam pra mim.
Vamos deitar.
Esqueça, de novo. Serei paciente e vou tentar ser um pouco menos mortal. Só não serei eu mesmo.
Agora é sua vez.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

À PONTE

Já tinha deixado tudo isso em outros papéis, e o vento insiste em soprá-los de volta. Eu colo todos no meu muro, virado para trás. E o reboco insiste em derrubar.
Agora olho ao meu redor, paredes dizem que ainda vou morrer aqui. Me escondo embaixo da cama que fundamos e afundamos. Em cada gota de suor, suas palavras doces ainda me fazem rir.
Eu até amarrei um barbante na saída, pra não me perder no seu caminho. Mas tem sempre uma armadilha, tem sempre um cão de guarda. Tem sempre um motivo pra se trancar numa gaiola. E aqui de cima, nada importa mais se estou com você, se estou em você. E você está em mim. Só não me deixe cair.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

FALÊNCIA

As cores têm ficado saturadas, nessas últimas noites. Últimas com contagem regressiva. Tudo preparado para a implosão.
Eu só queria um cobertor pra me proteger das fagulhas, das agulhas. Eu sinto quando estamos próximos, os dedos do pé congelam, as veias atrapalham meu caminho, a sombra segue cada passo. E a cada passo meu pé dói mais.
Medo de te convidar pro meu refúgio, de tentar te proteger. Acabar por derreter.
Medo de pensar que esses gemidos foram em vão. Repetidos sonhos, vão.
A janela está aberta, para qualquer um assistir o que quer que aconteça. Melhor que não aconteça nada. Eu nunca dei opiniões, nunca quis me intrometer. Achava melhor sentar numa árvore e rabiscar papéis imaturos, escrevendo contos-de-fadas. Agora prefiro os romances. Mas chove tanto por aqui, que minhas escritas foram apagadas.
Vejo no espelho alguém cansado de ser empurrado pro fundo desse poço, cada vez mais fundo, mais imundo.
Agora cercam minha torre com explosivos. Quero meu edredom, quero proteção. Queria poder sair. No fim, me aquece o fato de você não estar aqui, pra me ver cair.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

ENTRE VELAS E BELAS

Tudo gira em volta do seu umbigo, de novo. E de novo o enjôo e o medo desse buraco negro.

Ele sai correndo, foge, pra longe dos berros desesperados da conspiração. Mas é durante a noite que eles falam mais alto, que as luzes brilham mais forte e o vento causa mais cortes. E ele se vira com seu headphone e seus óculos-escuros, mas às vezes é bom deixar a luz cegar, é melhor não enxergar.
Correr não o impede de tropeçar. Ele acha que são esses tropeços que fazem o mundo ao redor do seu umbigo girar mais rápido. Os olhos injetados entregam isso. Sua morfina em cada mesa de bar não disfarça mais. A mascara caiu, e esse buraco o suga com mais força.
É tanta vontade que o deixa tonto. É tanta verdade que não o deixa acreditar. Mas
tanto barulho nesse lugar. Tanto barulho que tem de escolher um pra escutar. E é sempre o errado. Sempre o mesmo. O que tem a voz mais sedutora, o que não te chama pelo nome. E esse tudo, agora gira em sentido anti-horário, esse buraco nunca vai sumir.
E ela... Bom, ela bem tentou puxar sua mão.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Sua Fome


Vagando. Divagando. Se matando.
Esperando a decisão do júri popular.
Rindo das piadas que fazia quando era criança. Sonhando envolta fumaça de cigarro, em algum lugar, onde ocorrem assassinatos.

Se te chamo pelo nome, não precisa ser inteiro. Se me chama por inteiro, não precisa dizer nomes. Não precisa falar nada. Eu entendo. Eu te entendo. Bem, é o que entendo.
E isso não sai da minha cabeça. Durmo até perder a hora, para aproveitar o silêncio dos seus cantos. Me queimando nos seus cantos. Escorrendo pelos cantos.
E no meio desse quadro, não nos falta nada. Não há faltas graves. Não há motivos para um fim, nessa trama inacabada. E é assim: sem fim. Só por hoje. Só por mim.

quinta-feira, 13 de março de 2008

FRIEZA QUALQUER

Queria que funcionasse, mas meu coração não bate.
Há um ano, mais ou menos, desde que virei zumbi, nem transfusão me conserta.
Não queria que me empurrassem assim. Mas insistem em me jogar longe, além da minha linha de chegada. Aquém da sua linha de partida.
Alguns - ou mais - dias era tudo o que eu precisava. Pra cavar um buraco, fechar, e pôr uma lápida. Sem ninguém, claro.
Carros passam voando, me molham e ainda mostram o dedo. E eu só queria te levar ao destino, o seu destino.
Gostaria que fizéssemos de outro jeito, que continuássemos do lado errado. Na contramão. E, ao contrário, a gente fosse embora sem olhar pra trás. E você pra frente, tanto faz.
Desejava ser o canto de um quebra-cabeça. E que você fosse minha sequência. Mas uma peça escura me impede, te impede, e nos impele. Ímãs negativo e positivo - no sentido negativo da palavra.
Desisti de tentar fingir. Ou tentei fingir demais, e não consegui. Como todo bom fraco, tô cansado.
Todos que tentam demais, congelam. Alguns dizem que é desgaste, mas eu digo que é frieza, uma frieza qualquer, que não me interessa, ninguém se interessa.
Esse desinteresse é mais frio que tudo isso e ninguém vê. Um sentimento baldio. Assim como meu terreno, assim como meu alarde. E se vejo tudo isso se repetir, o que me resta é a saudade... E o arrependimento.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

PEÇA PRINCIPAL

Meu joelho dói. Queima. Deve ser de tanto rezar, de tanto implorar. De tanto cair aos seus pés. Lamber sua sola. Derreter no seu apartamento, ficar entre os tacos. Te ver lá de baixo, enquanto você me esfrega. Limpa meus vestígios, me lava do seu lençol. Sempre trocando, sempre, pra poder sujar com outro alguém. Pra poder se sujar em outro alguém.

Sua cabeça dói. Explode. Deve ser a culpa, a vontade de parar. De parar de cortar minhas peças, de me jogar no mar. De me olhar de canto, me deixar pra lá.
Vai ao armário – outra garrafa. Abastece e está pronta. Sua alma-transformista te elege rainha. E você acredita em cada fluído que ingere.
Levanta seu cetro e eu caio – de joelhos. Eles queimam.
Levantam sua saia e eu afundo. Me afogo.
Você levanta, de manhã, e sua cabeça dói.

sábado, 29 de dezembro de 2007

REFLEXÕES EM OITO SEGUNDOS

Lua. Linda lua. Grande e avermelhada lua.
Daqui desfocada, meio manchada. Faz com que as estrelas pareçam pequenos peixes e, ela, um buraco no oceano.
Ninguém me nota. A senhora que passa com sua bengala; a garota e seu cachorrinho; o rapaz que acabou de assaltar o bar. Ninguém me vê.
Um simples mendigo, é o que devo parecer. Pobre, sujo, caído. Morto.
E ninguém percebe.
Nem os mendigos, meus amiguinhos de fundo, prontos pra me trair.
Traição não é a palavra certa para eles. Cúmplices, talvez. Assistiram de camarote.
Só não comeram pipoca durante, porque, bom, suas mãos estavam ocupadas estendidas, pegando moedas.
Ela sim, me traiu. E não penso em me vingar. Não posso pensar.
Passaram-se 6 segundos e ainda não me perguntei o porquê de estar aqui, jogado numa poça que, há pouco, era simples e suja água, com suas larvas habituais. Agora avermelhada, e com uma larva a mais.
Antes de atirar, ela disse que isso era o fim do amor. Um fim trágico para um relacionamento igual. Ou um fim igual para outro relacionamento trágico.
Ninguém vai sentir minha falta. E, quem sabe, daqui a algumas horas, esses homens que vejo pelo reflexo, na poça, desfocados, comam minha carne. Depois de dois anos de sofrimento, eu seria útil: alimentaria seres que necessitam de carne, fibras e ferro – espero que aquele que engolir a bala em meus pulmões não tenha dentes.
Eu tive menos de dez segundos pra pensar em toda a minha vida, e não pensei em pedir perdão. Só Deus sabe para onde vou, daqui – talvez nem ele.
E agora não há mais tempo para perdoar ou pedir perdão. Nem para ser perdoado. Já está feito, e o sétimo segundo está acabando com a minha consciência, chegando ao fim. Eu também.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

TÃO FÁCIL POR SER SIMPLES

“As coisas são simples” – Ela disse.
É a terceira onda que molha meus pés, e certas frases não param de esmagar meu cérebro.
São realmente simples, as coisas, pra quem tem o orgulho maior que o ego.
Mas eu já vou, e você vai ficar. Suas palavras desossaram minha cabeça. Mas o que sobrou de mim, vai dissolver seu coração.
E você vai ficar.
Perigo é eu me esconder em você. Mas vou te escrever. Te escrever sobre meus pés molhados, sobre o vento em minha cara. Ou escrever sobre meu rosto molhado e o vento em minhas pernas.
Vou te escrever. Minha consciência foi perdida, mas meus dedos têm vida própria. Eles que começaram com tudo, e terminarão com isso.
E quando o sangue terminar de escorrer, suas lágrimas vão parar. Sim. As suas.
Meu sangue já não escorre mais. Já não bombeia...
Também, não há motivo. Afinal, as coisas são simples.
No fim é sempre igual, a queda só machuca no início. No final, com a angústia, a dor enfraquece.
A dor me enfraquece, escurece. Mas ela reflete, e vai refletir em ti.
Simples, como são as coisas.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

POESIA RETORNO A UMA AMIGA À MORTE

Chove forte, dois pingos, são lágrimas.

Suficiente para afundar, me afundar na serra.

Te afundar na serra, pra nunca mais voltar.

Ancorada. Rodeada de árvores, árvores com fios. Algumas pombas e nada mais.

À noite acendem. De manhã apagam. As pombas nunca voam.

A fumaça impede tudo e todos.

Enquanto isso, eu durmo, ou finjo.

O cobertor me prende, ele pesa em meus ombros.
A artrite também, essa não sai das minhas juntas. Junto com os pombos.

A chuva não pára. Minha cama inunda. E eu não levanto.

Acho que você é que é feliz. Você que mora em dois lugares: aquele meu, que bate, bombeando sangue. E aquele seu, que apanha, distribuindo tarefas, e a distância.

A distância que se tornou passageira.

Sofro demais nesse meio tempo de cinco segundos. Cinco dias. Cinco anos.

Cinco são as semanas de intimidade? Ou seriam cinco semanas e cinqüenta e dois dias?

Quantos serão os minutos de amor? Só a chuva pode responder...

Ela se preocupa mais em chorar. Em não me deixar levantar.

Meu corpo pesa menos que meu coração. Minha consciência continua menor que meu nariz. E minha vergonha... essa foi embora contigo.

Parte de mim se foi. Não pela vergonha, mas pela alma. Minha alma subiu, subiu para o meu lugar, o seu lugar, aí do lado. Grudada, em seus poros, em cada fio do seu cabelo.

Sinto a água virando pedra. Talvez cimento. Talvez minha cova.
Cobertor escuro. A escuridão ainda é pior que essa luz cinza, mas, estamos vivos, ainda.

Você, pelo menos. Eu continuo deitado, com meu dilúvio, meu dilúvio concreto.

Eu chamaria de peso na consciência, mas meu nariz ainda pesa mais.

Chamaria de vergonha na cara, mas minha vergonha se mantém em seus cabelos.

terça-feira, 17 de julho de 2007

VIGÉSIMO ANDAR

Você recita poesias. Eu jogo pedras por aí. Escreva logo minha sentença, antes que eu pense em fugir.

Ela olhava pela janela do carro, via os prédios altos e pensava que um dia seria assim.

Eu observava a sarjeta e descobria conforto. Percebia abrigo. Não sentia a violência. Assim como ela, quando via o próprio rosto nas nuvens.
Movia-se como doce, em meus sonhos. Tinha o olhar mais calmo e inexpressivo que nunca tinha visto. Me dava o primeiro gosto. O céu não podia esperar tanto. E não esperou...
Tão depressa quanto o que aconteceu, desabava em nossas cabeças, nos trazia dúvidas, incertezas. A chuva tentava separar o que o sol soldou.

Oh, céus, por que tanto tememos à felicidade?

É como se a lei nos obrigasse a escutar o que os vultos e encostos têm a dizer. Como se nos forçassem a obedecer.

Eu olhava pela janela do carro, via os prédios altos e pensava que aquilo tudo, como todo grande império, um dia ia cair.

Observava a sarjeta e notava a miséria da qual nunca iria sair.

Ela recitava poesias de como o amor é a salvação do mundo. Mas seus textos não ditavam o ser humano e seus temores. Não falava sobre a inveja. Seus versos não passavam de auto-piedade, guardados dentro daquele edifício, que desmoronava aos poucos.

sábado, 26 de maio de 2007

ISTO NÃO É DIVERSÃO - nem era pra ser.

Contenha-se, confessarei o que se passa por dentro. Por dentro de todos os nervos, músculos, artérias e todas essas coisas que só param com a morte. Ou que nos matam por nunca parar.
Parece comum a fila do banheiro de um bar. Parece comum aquele rapaz que passa pó no rosto. Não é novidade aquele outro que inspira todo pó que cai. É triste aquela garota que te olha com olhar de pena. Pena de si. Pena de mim por não ter pena dos outros. Viver lamentando a falta de carinho. E a falta de dinheiro para o álcool. E a falta do álcool pára o ar.

- Esse está vazio? - disse ela com olhar distante. Olhar úmido e claro. Agressor e desarmado.
- Não, mas você pode ir na minha frente, se quiser.
- Não quero ser problema na sua vida também...

Na fila do banheiro as pessoas são mais unidas. São mais íntimas.
A decisão de entrarmos juntos não foi minha. Juro. Talvez tenha sido o inconsciente-coletivo. Talvez o não-amor que evaporava por seus olhos. Talvez a carência que escorria com meu suor.
Não há melhor maneira de se encontrar um amor. No esgoto. Ao lado dele. Com o cheiro. Todo o ralo e todos os insetos e roedores.
É de lá que vêm todos os amores. E todos os amantes.

- De onde vem toda a paixão? - acende um cigarro, ainda nua.
- Sei para onde foi. Foi pra longe, longe do meu lado. Com a foice. Quando acreditei que tudo era fato consumado.
- Sua paixão não vem com o prazer?

Paixão e prazer não combinam. Só para os farmacêuticos, que sabem dosar os ingredientes nas medidas certas.

- Meu prazer vem com você. Serviço completo. Como todas as histórias que já foram derramadas nesses lençóis.
- Como a última inocência que derramei em seu cetim?
- E todas as dores e gemidos, grudados nele.

Ela levantou, se vestiu. Foi à torneira e, nela, se afogou.
Voltou ao ponto de partida. No banheiro. No esgoto. Entre todos os odores. Sob todo o excremento.

Depois de anos, ainda me pergunto como foi que tudo aconteceu. Aconteceu tão rápido. Não houve aquela coisa bonita do amor. Que amor? O amor que se foi com a descarga.
Uma cerveja. Outra dose de conhaque. O frio me mata... não o frio externo, o interno. Interno naquele músculo que não pára de bater.
Outro banheiro, outra fila. Outras pessoas; novas histórias. E, quem sabe, outra morte.
E assim, através do mundo, ou da noite. Que giram os dias, se combinam. Que repete. Erram e nos enterram. E nos repetem.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

ALCOOLISMO E NOSTALGIA

Por toda a existência, vidas se unem ou carregam de si poucas coisas. Que nada significam.
Como um jovem escritor, que leva consigo seus textos mal explicados, inacabados. Seus contos trocados.
Se para alguns animais a vida se resume em caçar, procriar e morrer. Para o ser humano, se resume em encontrar alguém pra amar, sofrer e morrer. E amar por sofrer. Sofrer por amar. Morrer, por se estragar.
Como um jacaré que mora no esgoto. Se afoga em seus vícios. Faz de tudo para encontrar um motivo. Os vícios são mal-vistos e vestidos. Vestem suas fantasias, os levam por caminhos impressionantes que, no fim, voltam ao esgoto.
Como um alcoólatra, que da vida sabe tudo, mas nunca vive nada. O tempo inteiro embalsamado. Parado. Morto em frente o balcão, com um copo na mão. Um corte profundo no coração.
Como aquela que se foi. Fez questão de abandonar. Assassinou por tabela o seu amor. Hoje passa os dias no colchão. Nostalgia não lhe serve mais, deu lugar à depressão.
E a boneca de pano. Como alguém que sonha. Tem planos. Murchando junto às violetas. Que, na janela, olham o mundo inteiro sem poder se soltar da terra.
Assim como o ser humano, que da terra não sai. E sobe pelas paredes para olhar por trás do muro. E descobrir que, do outro lado, há apenas um espelho.


sábado, 5 de maio de 2007

ENJÔO

"Às vezes me sinto tão cheio. Quero te dizer que me sinto bem...". Todas as cervejas acabaram, junto com a esperança. Aos poucos, se sufoca com seu último cigarro, que saboreia devagar e aproveita cada milésimo de prazer que a fumaça lhe proporciona.
No bar, parece que a vida tem muito mais sentido. Que cada gota de álcool torna seus problemas mais suaves. Seus desabafos mais audíveis. Ha...
Mas agora, que não há mais cerveja, a realidade vem à tona. Ela realmente o deixou, sem motivos, simplesmente o largou. Todo ser humano tem seus direitos reservados. O direito de enjoar de alguém, na hora que quiser, do jeito que entender.
Depois do sexo ela abriu uma vodca, encheu um copo-de-requeijão e se destruiu. No segundo copo, abriu a boca. Vomitou em cima dele tudo que estava entalado. Todas as verdades omitidas, todas as mentiras fantasiadas, todas as tragédias digeridas.
Na verdade, tudo isso se resumiu numa simples frase: "Enjoei. Você me enjoou".
Sem a cerveja, essas palavras martelam em sua cabeça. Machucam cada vez mais. Agora ele anda em direção ao mar, vai fundo, vai longe. E deixa ser levado pelo destino - ou pelas ondas.
Amanhã, quando ela acordar - com ressaca - vai descobrir que não era esse enjôo que sentia. Que seu enjôo era vício. E que seu vício a transformou em assassina.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

A CHUVA

Enquanto ela corre, a chuva não pára, não para ela. Tentando ao máximo se manter de pé em seus saltos, vai escorregando, escorrendo, pelas beiradas, suada, molhada, fingindo que ninguém repara. Assim como a chuva, a chuva, essa não pára.

Ouve-se ruídos, um bipe, um gemido, um celular a tocar. Ela não atende, está mais preocupada em chegar ao seu destino. O celular toca sem parar. Agora, não tem mais como fingir que não reparam, todos olham. Todos vêem aquela mulher correndo em círculos, dando voltas, tentando contornar o quarteirão, tentando desenhar seu rumo. Carros passam desapercebidos, motos cortam a chuva, desaparecendo. Não se vê bicicletas ou pedestres em sã consciência. A chuva ameaça inundar, ameaça alagar, e afogar. Ameaças que pra ela nada significam. Não há tradução sensata às ameaças sem sentido, desfiguradas, entre a chuva e a ventania. Outro bipe, mais um toque, agora, apenas um.

Outra esquina. Parece não ter fim. Não se sabe onde ela quer chegar, nem ela sabe onde chegará, a chuva a cegou. Ela quer ir pra casa, seu lar, quer se secar, ou se afogar de vez.

Agora, não há mais ruídos, não há mais chuva, ou vento. Não há mais nada. Tudo que existe é a mensagem de perdão, naquele aparelho, que foi jogado longe, longe... Em outra estação. Junto com todo seu resto, tudo que sobrou foi o nada. E o sangue. E a chuva. ah... essa não dá conta de limpar tudo.